Crítica – Digger (2026)

Digger chega aos cinemas como aquele tipo de filme que parece ter sido escrito olhando pela janela e pensando: “até onde isso tudo pode chegar?”. Alejandro González Iñárritu transforma crise climática, interesses econômicos, disputas políticas e a concentração de poder em uma enorme sátira sobre o mundo em que estamos vivendo.

O mais interessante é que o filme não coloca o cidadão comum no controle de absolutamente nada. As grandes decisões estão nas mãos de pessoas extremamente poderosas, enquanto o restante da população apenas assiste às consequências. É justamente essa sensação de impotência diante de guerras possíveis, catástrofes ambientais e decisões tomadas muito acima da nossa cabeça que faz Digger parecer tão atual.

E Tom Cruise é uma surpresa enorme.

Acostumado a correr, saltar de prédios e salvar a humanidade, Cruise aqui faz praticamente o contrário: interpreta um bilionário arrogante, excêntrico e diretamente ligado ao desastre que ameaça o planeta. É uma atuação completamente diferente da imagem que ele construiu no cinema de ação e, para mim, talvez seja uma das performances mais interessantes de sua carreira recente. A atuação já aparece entre os elementos mais discutidos nas primeiras críticas e o coloca naturalmente no radar da temporada de prêmios.

Mas a grande surpresa está na metalinguagem.

Sem entregar o jogo, Digger começa a questionar a própria construção daquilo que estamos assistindo. A ideia de que toda aquela tragédia possa também funcionar como um grande teatro para quem está no topo é uma das sacadas mais interessantes do filme. É como se Iñárritu perguntasse: e se, para determinadas pessoas, o fim do mundo também fosse apenas mais um espetáculo?

Nem tudo funciona. A sátira é propositalmente exagerada, algumas ideias são marteladas demais e o filme pode parecer pretensioso em determinados momentos. Parte da crítica justamente apontou esse excesso, enquanto outras análises destacaram a ousadia e a construção visual.

Mas talvez Digger precise mesmo incomodar.

Não é um filme sobre uma única crise. É sobre a sensação de que o mundo pode estar caminhando para consequências gigantescas enquanto quem realmente possui poder continua discutindo quem controla o volante.

E isso, infelizmente, é assustadoramente atual.

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