Crítica – Nosso Segredo (2026)
Existem filmes que precisam ser compreendidos em todos os seus detalhes para funcionar. Nosso Segredo, de Grace Passô, talvez não seja exatamente esse tipo de filme. Sua narrativa aposta muito mais em sensações, simbolismos e no que está escondido por trás das relações familiares do que em explicar ao público exatamente o que está acontecendo. E é justamente nessa escolha que o longa pode provocar diferentes interpretações.
Partindo do luto de uma família negra após a morte do patriarca, o filme utiliza o espaço da casa, os silêncios, a fantasia e elementos de realismo fantástico para transformar a dor em algo quase físico. A casa deixa de ser apenas cenário e passa a carregar parte dos sentimentos daquela família. O espectador é convidado a observar mais do que receber respostas.

O Surgimento de um novo talento
Mas, para mim, o grande destaque de Nosso Segredo está em Efraim Santos, em sua estreia nas telonas. O garoto demonstra uma intimidade com a câmera que impressiona justamente por parecer completamente natural. Não existe aquela sensação de estarmos vendo uma criança tentando “atuar para o cinema”. Ele simplesmente está ali.
E isso faz toda a diferença.
A pureza do personagem permite que Efraim transmita boa parte do luto que o filme pretende colocar dentro daquela família. Muitas vezes, enquanto os adultos estão presos às próprias questões, é através do olhar do garoto que conseguimos perceber aquilo que está acontecendo emocionalmente. Existe uma espontaneidade nele que dificilmente se ensina. É o tipo de atuação que faz pensar que talento realmente pode vir de forma fluida.
Também é impossível ignorar o trabalho de Grace Passô. Em sua estreia na direção de um longa-metragem, ela demonstra coragem para construir uma obra que não segue necessariamente o caminho mais convencional. Existe uma forte influência teatral, naturalmente ligada à origem da história em Amores Surdos, mas o filme procura transformar esse material em linguagem cinematográfica através da fotografia, do som, da direção de arte e principalmente da atmosfera.
Isso pode tornar a experiência menos imediata para parte do público. Nosso Segredo não entrega tudo mastigado e exige uma participação maior de quem está assistindo. É um filme que permite interpretações e, justamente por isso, pode causar aquela sensação de terminar a sessão ainda tentando organizar tudo o que acabou de acontecer.

Grace Passô e BH
Mas existe algo que considero ainda mais importante: a estreia de Grace Passô mostra que Belo Horizonte tem, sim, condições de produzir cinema autoral de grande alcance e qualidade. E talvez o que realmente falte seja um carinho maior com as produções autorais e independentes que nascem aqui. Muitas delas conseguem reconhecimento, circulam por festivais importantes, são premiadas e ganham visibilidade fora de Minas, mas acabam tendo pouquíssimo espaço e atenção dentro da própria cidade onde foram produzidas. É curioso — e até triste — ver um filme mineiro ser valorizado por quem está de fora enquanto, muitas vezes, o próprio público local sequer sabe que ele existe. Nosso Segredo também serve para lembrar que precisamos olhar mais para o cinema que está sendo feito aqui, incentivar quem produz e entender que Belo Horizonte não precisa esperar que alguém de fora diga que temos talento para finalmente reconhecer o que é nosso.
E é justamente por isso que vejo na estreia de Grace Passô algo tão importante. Nosso Segredo não é apenas um filme que representa Belo Horizonte; ele mostra que existe aqui uma produção autoral capaz de dialogar com o cinema nacional e até mirar espaços internacionais. Com mais incentivo, divulgação e, principalmente, atenção do próprio público mineiro, talvez a gente descubra que existem muito mais histórias e talentos extraordinários acontecendo bem debaixo do nosso nariz.
Talvez Nosso Segredo não seja um filme que entregue todas as respostas que o público procura. Mas talvez nem queira entregar. O que ele deixa, acima de tudo, é a sensação de estar diante de uma diretora que encontrou uma linguagem própria e de um jovem ator que, logo em sua primeira experiência no cinema, demonstra que ainda podemos estar descobrindo um grande talento.
E, para uma estreia, isso já é muita coisa.



