Crítica: Vermiglio
“Vermiglio“, novo filme da italiana Maura Delpero, aposta num ritmo lento, contemplativo e bastante visual.

Ambientado num vilarejo isolado no interior da Itália, o longa mergulha no cotidiano de mulheres que vivem em silêncio, quase sempre à margem da ação, revelando mais nos olhares e gestos do que nos diálogos. A diretora constrói uma atmosfera marcada pela melancolia e pelo uso expressivo da cor vermelha, símbolo recorrente de sangue, memória e resistência.
Tecnicamente, o filme entrega um visual abstrato e invernal, que reforça a sensação de vazio e perda sentida pelos personagens. A fotografia explora bem essa frieza e cria uma estética que se aproxima mais das belas artes do que do cinema convencional. A narrativa é minimalista e pode parecer arrastada — especialmente para quem não está habituado a filmes de arte. As duas horas de duração soam longas, e os diálogos, muitas vezes improvisados por um elenco sem muita experiência profissional, podem causar certo estranhamento.

Apesar disso, Vermiglio consegue transmitir uma mensagem sobre as marcas da guerra de forma silenciosa, sem recorrer a grandes cenas ou discursos. É um filme que exige paciência e entrega, mas recompensa com uma experiência sensível e intimista. Delpero convida o espectador a desacelerar e refletir sobre a dor que persiste em ambientes esquecidos pelo tempo. O clima cinzento e os espaços vazios funcionam quase como personagens, lembrando que há traumas que continuam pairando, mesmo quando o mundo já seguiu em frente.
“Vermiglio” pode não agradar todos os públicos, mas é um retrato delicado e maduro das memórias que a guerra deixou — especialmente nos pequenos cantos do mundo onde o silêncio ainda grita.
Texto por Filipe Coelho





