Crítica : Backrooms – Um Não Lugar
Existe uma tendência cada vez mais forte em Hollywood de olhar para criadores da internet e enxergar novos cineastas. E, sinceramente, o termo “youtuber” acaba sendo até injusto em muitos casos. Se nomes como Steven Spielberg ou Quentin Tarantino tivessem nascido na era do YouTube, muito provavelmente também usariam a plataforma para apresentar suas ideias antes de chegarem aos grandes estúdios.
Felizmente, essa nova “peneira” vem revelando talentos interessantes, principalmente dentro do terror. E poucos exemplos representam isso tão bem quanto Kane Parsons.

Quando menos era muito mais
“Backrooms” virou um fenômeno justamente porque entendia como poucos o poder da simplicidade. Seus curtas utilizavam a linguagem do found footage para criar uma experiência extremamente imersiva, onde o medo surgia do silêncio, dos corredores intermináveis e da sensação constante de que algo estava errado.
Não era um terror baseado em monstros.
Era um terror baseado na atmosfera.
E talvez por isso o projeto tenha chamado tanta atenção a ponto de ganhar uma adaptação para os cinemas.

O cinema muda aquilo que funcionava
O grande problema é que, na tentativa de transformar Backrooms em um longa tradicional, o filme acaba abandonando justamente aquilo que fazia seu conceito funcionar.
A decisão de misturar o found footage com uma narrativa convencional nunca encontra um equilíbrio. Em vez de potencializar a experiência, essa escolha deixa o filme confuso, quebrando constantemente a imersão que os vídeos originais construíam com tanta eficiência.
A história também demora demais para engrenar. Durante boa parte da projeção, parece que o filme ainda está tentando descobrir qual narrativa deseja contar. Quando finalmente começa a desenvolver sua trama, já se passaram cerca de trinta minutos, e mesmo assim a conclusão soa apressada e pouco convincente.
Existe uma sensação constante de que a história nunca encontra um propósito claro.

A verdadeira protagonista é a direção de arte
Se existe um aspecto que merece todos os elogios, é a direção de arte.
Os cenários conseguem traduzir perfeitamente aquela arquitetura impossível que transformou Backrooms em um clássico da internet. Os corredores vazios, as salas sem identidade e a iluminação desconfortável criam um ambiente extremamente claustrofóbico, capaz de causar ansiedade apenas pela forma como ocupam a tela.
Em diversos momentos, a sensação é de falta de ar, como se o próprio espaço estivesse sufocando o espectador.
Infelizmente, o elenco não consegue acompanhar essa qualidade. As atuações raramente transmitem o medo genuíno que a situação exige, fazendo com que o terror perca parte do impacto emocional. Em um universo onde a atmosfera deveria ser suficiente para provocar desespero, os personagens acabam funcionando mais como guias da narrativa do que como pessoas realmente presas naquele pesadelo.
No fim, Backrooms deixa a impressão de que tinha todos os elementos para se tornar uma das adaptações mais interessantes do terror recente, mas acabou acreditando que precisava seguir as regras do cinema tradicional para funcionar.
E talvez esse tenha sido seu maior erro. Porque o verdadeiro terror de Backrooms nunca esteve na história. Sempre esteve na sensação de estar completamente perdido em um lugar que parece não ter fim.




