Crítica : Obsessão (2026)
Quando o simples assusta mais que monstros
2026 vem se consolidando como mais um excelente ano para o cinema de terror, repetindo a força que o gênero teve no ano passado. E em meio a grandes continuações, produções gigantescas e fórmulas já desgastadas, Obsessão surge quase de surpresa, daquele tipo de filme que pouca gente esperava muito, mas que rapidamente começa a ganhar força justamente por fazer o básico extremamente bem.
O longa entende algo que muitos filmes atuais parecem ter esquecido: o verdadeiro medo nem sempre vem de demônios, fantasmas ou criaturas sobrenaturais. Às vezes, ele nasce simplesmente do comportamento humano. E é exatamente isso que torna Obsessão tão desconfortável.
O terror aqui não depende de sustos baratos ou aparições exageradas. Pelo contrário, ele cresce aos poucos através de atitudes, olhares, silêncio e principalmente da obsessão emocional que move toda a narrativa. É aquele tipo de filme que vai te deixando inquieto sem precisar gritar na sua cara que algo está errado.

O verdadeiro terror está no protagonista
Os efeitos práticos ajudam muito na construção dessa atmosfera mais crua e perturbadora, mas o grande destaque acaba sendo mesmo a atuação de Inde Navarrette, que praticamente se firma aqui como uma nova “diva” moderna do terror. Ela consegue trazer vulnerabilidade, estranheza e ameaça ao mesmo tempo, dominando completamente a tela sempre que aparece.
Mas o ponto mais inteligente do filme está na forma como ele conduz sua narrativa. Conforme a história avança, fica claro que a verdadeira vilania talvez nunca tenha sido exatamente a mulher da trama. O horror real gira em torno do protagonista masculino e da forma como ele reage a tudo aquilo.
Mesmo percebendo que a situação já ultrapassou qualquer limite do normal, ele continua alimentando aquela obsessão, incapaz de interromper o ciclo. E quanto mais o filme avança, mais fica evidente que o verdadeiro obsessor é ele.
A falta de empatia, o medo desesperado da rejeição e a necessidade constante de controle transformam o personagem em um narcisista clássico. E o mais interessante é que o roteiro faz isso de maneira extremamente sutil. Em vários momentos, o filme parece quase querer colocá-lo como vítima, como o “coitado” da situação, mas existe ali uma provocação muito clara do diretor para o espectador perceber que aquilo tudo também é consequência direta das escolhas dele.

Um possível novo clássico do terror moderno
E talvez seja justamente essa camada psicológica que faça Obsessão funcionar tão bem. O filme não quer apenas assustar; ele quer incomodar emocionalmente. Quer fazer o público perceber que o verdadeiro horror pode nascer de carência, posse emocional e obsessão afetiva.
No fim, Obsessão acaba se tornando muito mais do que apenas um terror sobrenatural estiloso. É um filme sobre ego, rejeição e controle emocional disfarçado de horror psicológico. E sinceramente, justamente por entender tão bem sua própria proposta, ele já tem tudo para virar um clássico moderno do gênero.
E talvez a maior prova disso seja uma coisa simples: seria quase um crime transformar essa história em franquia com uma continuação desnecessária.





